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Festa do Divino em Paraty

(Festa do Divino. Foto: Phelipe Paraense)

Por Gustavo Cerqueira – publicado em 24/05/17

Olhe moço, falar da Festa do Divino é falar um bocado da alma do paratiense. Até porque não tem festa de igual tamanho pelas bandas de cá, nem evento que mostre com a mesma importância os costumes, tradições e a força de sua comunidade. Mas principiemos de onde deve nascer toda história: sua origem.

É difícil dizer assim, com exatidão de número, quando começaram os festejos do Espírito Santo em nossas terras. Dizem que chegou pelo Brasil foi com os portugueses e que aqui em Paraty começou com a criação da vila, no século XVII. Parece que foi Rainha Isabel, devota que era do Espírito Santo, quem teve toda a ideia de organizar os festejos em sua homenagem, muito tempo atrás nas terras lusitanas. Mas até aí, morreu o Neves. Porque se a data é coisa insegura, o que se tem de fato sabido mesmo é que, até os dias de hoje, a festa do Divino é um dos momentos mais aguardados e celebrados por todo o povo paratiense, do campo e da cidade, crente ou descrente.

(Bandeiras do Divino e Igreja de Santa Rita. Foto: PASCOM Paróquia Nossa Senhora Dos Remédios)

(Resplendor do Divino. Foto: PASCOM Paróquia Nossa Senhora Dos Remédios)

Nessa época, moradores e passageiros se apercebem que a cidade é enfeitada de vermelho e branco pra todo lado. As cores estão nas roupas do povo, na decoração das igrejas, nos mastros e nas bandeirinhas que cruzam as ruas estreitas do centro. Pois explico: o dia de Pentecostes, que é comemorado no domingo e último dia da festa, foi quando o Espírito Santo desceu sobre os apóstolos. E, como contam os antigos, quando isso procedeu ele apareceu na forma de línguas de fogo, daí esse avermelhado que se espalha até o perder da vista. Já o branco, não tem equívoco: é o símbolo da paz e da pomba que apareceu no batismo de Jesus Cristo.

Mas já me alonguei demais nessa prosa e ainda não falei do mais importante – a festa. Pois o povo de fora, quando escuta falar festa do Divino, se alembra logo do almoço que acontece no sábado da vigília de Pentecostes, lá na praça da Matriz. Tá certo que essa não é coisa pequena. Eu mesmo nunca sabiei de almoço tão farto em qualquer outro canto. Uns dizem três mil. Outros, com voz de entendedor, falam de até cinco mil almoços servidos nesse dia. E olhe, é mesmo gente que não acaba mais; jovem e velho, rico e pobre, matuto e intelectual. Ninguém ali fica sem comida e por algumas horas, as importâncias são as mesmas e o prato é igual pra todo sujeito que se achega. Mas escute bem, moço. A verdade é que a celebração do Divino é coisa muito maior e cheia de detalhes.

A preparação dura um ano todo de trabalho do festeiro e de seus auxiliares e sua inauguração oficial é no finzim da Páscoa, quando se junta o mutirão para altear aquele mastro bonito com a bandeira do Divino que fica na Matriz. Daí, são contados cinquenta dias até o Domingo de Pentecostes, que é o dia mais importante. Mas antes disso, tem nove dias de festas, a novena. E é festas no plural mesmo, pois atente que são muitas, da sagrada à profana. Durante a novena, a festa vai da igreja paras ruas e das ruas para as casas, com a folia que segue pelas ruas de pedra a entoar suas ladainhas e acompanhar a procissão que vai levando as bandeiras do Divino para a casa dos devotos, que é pro povo fazer promessas e expressar sua fé. Daí quando chega o sábado, tem missa, distribuição de alimentos aos precisados, procissão das esmolas, almoço e por fim, é chegado um dos momentos mais esperados: a coroação do Imperador. Aí sim é o povo todo reunido na igreja para ver subir no altar um sujeito simples, como eu e você, virar realeza por um dia, com toda a pompa e circunstância. Ver assuceder essa cerimônia na Igreja de Nossa Senhora dos Remédios – a da Matriz – é lindeza difícil de explicar com as letras. E pra quem acha que já foi muita coisa, não se afobe a pensar que acabou: depois da coroação, vem uma festança boa que só. Porque é aí que junta todo mundo para dançar em roda com os grupos de ciranda e dança tradicional, que vem da roça e dos bairros rurais mais afastados. Sem falar dos bonecos como o boi, a peneirinha e a congada de Cunha, que todo santo ano – com o reforço do trocadilho – desce pra acompanhar nossa procissão e reforçar o coro.

(Missa na Igreja Matriz. Foto: PASCOM Paróquia Nossa Senhora Dos Remédios)

Pra completar essa alegria toda, tem também a festa profana, que é como o pessoal costuma chamar as competições esportivas, gincanas, barraquinhas, e os shows no palco grande que surgiram mais recentemente, para deixar contente o mundaréu de turistas que chega na cidade. E mesmo com palco, todos os antigos afirmam: a essência dos festejos do Divino não mudou. Que o diga Dona Filhinha, que é jovem no nome e no espírito, mas veterana na organização da festa. Hoje com 88 anos, já se foram mais de 50 dedicados à feitura das flores, que fazem de nossa igreja uma boniteza, e à preparação do almoço de sábado. “Meu filho, essa festa é uma dádiva para nós e hoje ela segue ainda mais viva e forte, com todos os jovens que tem participado e ajudado na organização”, lembro ela contar, emocionada. É o caso de Eduardo, jovem que como outros tantos voluntários, se dedica aos arranjos da festa. Muitos deles vão cumprindo promessas feitas por uma graça recebida ou desejada. E a folia vai até o domingo, quando acontece a missa de Pentecostes, a distribuição de doces e o encerramento. Só então todos voltam pras suas casas, satisfeitos.

E se ainda for dificultoso entender a força do Divino, imagine: no fim são lágrimas nos olhos, coração cheio de acalanto e força nos pés, que é de caminhar o dia todo pelas ruas pé-de-moleque do centro e ainda dançar no baile de ciranda o caranguejo, o moçambique, a cana verde, a canoa, a arara, as danças típicas dessa terra. Daí que as comemorações do Divino Espírito Santo são uma das expressões mais fortes desse povo, de sua identidade e sua cultura. É um momento que o povo todo se reúne para trabalhar junto, para exercitar a generosidade com as doações que são precisadas e fazer da festa uma grande confraternização de solidariedade e muita partilha. Isso sem falar na alegria de rever e reencontrar os parentes e chegados que vem de longe, dos bairros rurais ou das cidades que se avizinham.  

Pra encurtar, é como disse antes, lá nos princípios. Falar do Divino é falar de toda a fé, história e cultura da comunidade paratiense. A bem dizer, contar o Divino é quase, mas quase mesmo como contar Paraty.

(Agradecimentos especiais: A Eduardo Moreira (23), Regina Pádua (65), Aricléia Marques (80) e Benedita Vieira – a Dona Filhinha (88) por me honrarem com causos e contos de uma devoção que atravessa gerações. E também à Mônica Marques da Pastoral da Comunicação e Phelipe Paraense, pela generosidade em compartilhar suas lembranças em forma de imagem.)